Resenha parcial da obra: PASCAL, George. O pensamento de
Kant. 6ª. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
Antonio G. Sobreira
Kant rejeitou a metafísica
tradicional. As incertezas das conclusões metafísicas levaram Kant à ideia da
Crítica. Foi a leitura de Hume que o “fez despertar do sono dogmático”. Hume
havia argumentado que “a razão é incapaz de pensar a priori,” assim
como o “conceito de relação necessária, como é o caso de causa e
efeito". Só
a experiência poderia engendrar essa ideia de “causa.” O princípio da causalidade era uma ilusão criada pelo hábito - Hume.
Era pelas análises das ideias a priori do espírito, ou das ideias inatas, que o racionalismo de Descartes, de Leibniz e de Woff pretendia atingir verdades absolutas e construir uma metafísica.
Era pelas análises das ideias a priori do espírito, ou das ideias inatas, que o racionalismo de Descartes, de Leibniz e de Woff pretendia atingir verdades absolutas e construir uma metafísica.
A crítica de Hume persuadiu Kant a
abandonar o “velho dogmatismo”, mas Kant não alimentava simpatia pelos céticos.
Kant acha que o ceticismo erra por manifestar indiferença para um tema que não
pode ser indiferente a natureza humana. É a metafísica que trata de temas como Deus, alma
imortal, liberdade do homem no mundo. A razão não pode limita-se a
experiência.
Mas porque a metafísica não avançou por caminhos seguros,
enquanto outras ciências o fizeram? Por que não apresenta o mesmo grau
de certeza das outras ciências, como a matemática e a física? A metafísica pode
ser considerada uma ciência?
Kant não elaborou uma nova metafísica,
mas atacou o problema pela raiz. Interroga sobre as possibilidades da razão. O
que a razão pode conhecer? A preocupação crítica é não dizer mais do que
se sabe. Essa crítica diz respeito a razão pura. A metafísica é possível ou
impossível? A razão será examinada. Buscar-se-á a própria razão, suas regras e
os limites da sua atividade.
Kant examina a “razão especulativa”, na sua primeira crítica. E depois ao princípio de nossas ações “a razão prática.” E a razão de nossos juízos estéticos e teleológicos, na “crítica do juízo”. Mas estas últimas não serão tratadas aqui.
Kant examina a “razão especulativa”, na sua primeira crítica. E depois ao princípio de nossas ações “a razão prática.” E a razão de nossos juízos estéticos e teleológicos, na “crítica do juízo”. Mas estas últimas não serão tratadas aqui.
O
método de Kant pode ser denominado de método reflexivo (movimento pelo qual o
sujeito se volta sobre si mesmo).
(1) Como se explica os conhecimentos
racionais e certos na matemática e na física?
(2) É possível haver tais conhecimentos
na metafísica?
Como a matemática chega ao conhecimento
a priori? Assim chegaremos a possibilidade da razão. As noções da metafísica procura estender o
conhecimento além da experiência ( as noções metafísicas são noções a priori).
Tales, Galileu, Torricelli, todos se guiaram docilmente pela experiência,
acumulando observações esparsas, começaram a interrogar a natureza segundo as
exigências da razão, lograram assim, descobrir as leis.
A mudança do método consiste em
determinar o objeto consoante a exigência da razão, em vez de por o objeto como
uma realidade dada, perante a qual a razão tem que se dobrar. Nosso conhecimento do objeto depende do sujeito
conhecente tanto quanto do objeto conhecido. Esta é a famosa
revolução copernicana Kantiana.
Os objetos devem ajustar-se ao nosso
conhecimento. Kant substitui a hipótese realista pela hipótese idealista. O
Realismo admite que uma realidade nos é dada. Conhecer significa registrar o
real. O espírito é passivo nessa operação. No Idealismo, o espírito intervém
ativamente na elaboração do conhecimento. O real é resultado de uma construção.
Ou seja, o objeto que conhecemos, em parte é obra nossa. “Não conhecemos a priori
nas coisas senão aquilo que nós mesmos nelas colocamos”. (Idem, p. 36).
O idealismo transcendental
Vamos precisar a noção de a priori.
Nossos conhecimentos do objeto se dão
em forma de dois elementos:
(1) Depende do próprio objeto. É a “matéria” do
conhecimento.
(2) Depende do sujeito. É a “forma” do conhecimento.
Conhecer é dar forma a
matéria dada. A matéria é a posteriori, e a forma, a priori.
Existem conhecimentos a posteriori e
conhecimentos a priori. Como distinguir entre ambos? O conhecimento a priori
são toda “proposição universal e necessárias”. A experiência da
origem a “proposições contingentes”. [2] Se
nos ativermos à experiência, não poderemos passar para proposições universais.
Nossa certeza se baseia apenas nos fatos que podemos constatar. Não podendo
passar para uma afirmação universal válida para todos os casos.
Portanto a razão é a fonte única de
proposições universais e necessárias. E isso não seria possível se a mente não
fosse fonte de conhecimento. É certo que possuímos conhecimentos a priori.
Exemplos:
As proposições da
matemática.
O principio da casualidade. Tudo que
acontece tem uma causa, é uma proposição universal e necessária.
Nos próprios conceitos empíricos, há a
noção do espaço.
Espaço e substancia são a priori.
Nem todos os nossos conhecimentos a priori
têm o mesmo valor. Ciência e metafísica, são diferentes. No primeiro
há acordo, no segundo não.
É necessário fazer distinção entre
juízo analítico e juízo sintético. (PASCAL, p. 38).
Todo juízo de experiência é sintético.
A experiência nos ensina a
acrescentar certos atributos aos nossos conceitos. “Todos os corpos são
pesados.” Acrescenta ao conceito corpo o atributo “peso”.
Os juízos analíticos são a priori. Pois não há nenhuma necessidade de recorrer a
experiência para determinar o que penso num determinado contexto.
A GRANDE DESCOBERTA DE KANT é uma
terceira classe de juízos: os juízos sintéticos a priori.[3]
Estes são universais e necessários,
como os juízos analíticos, mas além disso, nos permite ampliar os nossos
conhecimentos, enquanto os juízos analíticos apenas podem explicá-los
ou esclarecê-los.
“O que diferencia os conhecimentos
racionais da matemática e da física dos da metafísica é que aqueles são juízos
sintéticos a priori, e estes, juízos analíticos.[4] [...]
A ciência da natureza contem em si como princípios juízos sintéticos a priori.”
(PASCAL, p.39).
“É a tais juízos que a matemática e a
física devem o seu caráter de certeza. E foi no exemplo dessas ciências e
nomeadamente, no da matemática, que em todo tempo se inspiraram a metafísica.
O problema é de saber se os juízos
sintéticos a priori são igualmente possíveis em metafísica. Problema esse que
somente a Crítica é capaz de resolver.
“Na metafísica, ultrapassamos ou
transpomos toda experiência possível e, por conseguinte, nada temos que possa
garantir o valor objetivo dos nossos conhecimentos Esta é uma conclusão sumária
da Crítica”.
Consequências
A crítica da razão pura pode ser
caracterizada como um inventário das formas a priori do espírito, enquanto
faculdade de conhecimento.
Formas a priori são os quadros universais e necessários
através dos quais o espírito humano percebe o mundo. Mas há
distinções na forma de conhecer.
(1) Formas a priori da sensibilidade ou das
intuições
(2) Formas a priori do entendimento ou dos
conceitos.
“ A matéria a ser conhecida é ao mesmo
tempo dada e ligada no interior das formas a priori. Haverá, pois (1)formas a
priori da sensibilidade e (2)formas a priori do entendimento.” (Idem, p. 41).
(1) As formas a priori da sensibilidade, ou intuições
puras, são espaço e tempo. São os quadros ou moldes universais e
necessários nos quais e inserem as intuições empíricas (cores, sabores, odores,
sentimentos, etc).
O Espaço é a forma do sentido
externo. O tempo, a forma do sentido interno.
“E, visto como a geometria tem por
objeto o espaço, que é uma intuição pura, compreende-se que ela possa enunciar juízos
sintéticos a priori: o caráter intuitivo do espaço explica que tais juízos
são sintéticos e, como a intuição é pura, a síntese é a priori.”
(2) Formas a priori do entendimento (ou dos conceitos),
são as categorias, ou maneiras próprias ao espírito humano de
conceber as coisas, isto é, de ordenar o múltiplo dado na intuição.
Os conceitos de substância
e causalidade são categorias.
Eu sei a priori
que todo fenômeno é causado, e que em toda mudança alguma coisa se conserva.
“Assim se explica a certeza dos princípios da
física: nada mais fazem do que enunciar aquilo que o espírito exige das coisas
para que possam ser conhecidas.” (idem, p. 41).
Mas, estas categorias não são mais do que formas, ou seja, maneira de ligar. Por si
mesmas nada nos dão a conhecer, e somente as intuições sensíveis podem dar um conteúdo e uma
multiplicidade a ser ligada.
O espírito humano é constituído de
formas, tal que lhe é impossível deixar de fazer um uso suprassensível dos referidos
conceitos e de captar por meio deles alguma realidade transcendente.
No mundo sensível não percebemos senão
relações, pois conhecer é ligar; mas o espírito aspira ao absoluto, ao
incondicionado. Pode-se chamar-se razão ao
entendimento enquanto pretende captar o incondicionado, e ideias, aos conceitos obtidos nesse
tipo de pesquisa.
Assim, o mundo, considerado como um todo, é uma ideia da razão;
igualmente a alma, considerada
como substancia existente em si mesma, e Deus, substancia das substâncias e
causa das causas, são ideias da razão.
Mas como as categorias não tem outros conteúdos que não sejam os dados das intuições sensíveis[5],
este uso suprassensível que delas faz a razão, embora muito natural, é
ilegítimo.
O entendimento é constitutivo, quer
dizer: os seus conceitos dão forma à experiência; a razão é
reguladora; quer dizer: as suas ideias orientam a marcha do pensamento para o
absoluto, mas não permite atingi-lo. A metafísica é uma ilusão inevitável. Somo levados a pensar a alma, o mundo e Deus; mas não podemos conhecê-lo.
São estes os temas fundamentais da crítica da razão
Pura.
1ª Parte - Estética transcendental
· Formas a priori da sensibilidade. Como
são possíveis os juízos sintéticos a priori da matemática?
2ª Parte – Lógica transcendental
(1)
Analítica – (as formas a priori do entendimento). Como são possíveis os juízos
sintéticos a priori da física.
(2)
Dialética – (Ideias da razão).
É possível haver juízos sintéticos a priori na
metafísica? Kant responde negativamente.
Consequências mais importantes
Precisando a noção de transcendental
“nunca significa relação do nosso
conhecimento com as coisas, mas somente relação com a faculdade cognitiva”
(Prolegômenos, p. 63 apud Pascal, p. 43).
“chamo transcendental a todo
conhecimento que se ocupa, não propriamente com objetos, mas, em geral, com a
nossa maneira de conhecer objetos, enquanto esta deve ser possível a
priori” (B 25;TP 46 apud Pascal, p. 43).
Transcendental se opõe a empírico. O principio
de causalidade, por exemplo, é transcendental. E assim se aproxima de transcendente, que
designa o que está para além de toda experiência.
Mas não devemos confundir os termos.
“Um principio transcendental, com
efeito, não admite outro uso que não seja o imanente, quer dizer, referente aos
objetos de experiência.” (idem, p. 43).
“Um princípio transcendente, ao
contrário, pretende ultrapassar o domínio na experiência”.
“Nesse sentido, o termo transcendental
é inteiramente característico da filosofia kantiana, que é precisamente um
esforço para descobrir no pensamento os elementos constitutivos da experiência,
dos meios de captar e de ordenar o real.” (idem, p, 44).
“não significa aquilo que ultrapassa
toda experiência, mas aquilo que, em rigor de expressão, a antecede (a priori),
sem outra finalidade que não seja a de possibilitar, exclusivamente, o
conhecimento da experiência” (idem, p.45).
Conceito de ideia
“Por ideia entendo um conceito racional necessário, ao qual não
pode corresponder nenhum objeto dado pelos sentidos. Assim, os conceitos puros
da razão... são ideias transcendentais. São conceitos da razão pura, visto
considerarem todo conhecimento empírico como determinado por uma totalidade
absoluta das condições. Não são imaginados arbitrariamente, mas nos são dados
pela própria natureza da razão, e referem-se de um modo necessário a todo uso
do entendimento. Em suma, são transcendentes e ultrapassam os
limites de toda experiência, na qual não poderia haver qualquer objeto adequado
à ideia transcendental” (Kant apud Pascal, p. 44).
Conceito de idealismo transcendental
É a doutrina segundo a qual
todo objeto de conhecimento é determinado a priori pela própria
natureza de nossa faculdade de conhecer.
O idealismo kantiano longe
de ter por duvidoso o valor da experiência, e de procurar a verdade
nas ideias do entendimento puro e da razão, como faz o idealismo clássico,
considera, ao contrário, que: “todo conhecimento das coisas proveniente só do
entendimento puro ou da razão pura não passa de ilusão; só na experiência há
verdade” (Kant, p.152 apud Pascal, p. 45).
A favor do empirismo. Não há conhecimento que não proceda da
experiência. “Nenhum conhecimento precede em nós a experiência, e todos começam
com ela”.
A favor do idealismo clássico. A razão é por si mesma fonte de
conhecimentos, visto que há juízos sintéticos a priori.
“Conquanto todo nosso conhecimento
comece com a experiência, nem por isso deriva, todo ele, da experiência”.
Contra o racionalismo clássico, Kant
sustenta que a razão é incapaz de atingir realidades outras que não as
sensíveis; conhecer, é conhecer alguma coisa; fora dos objetos do mundo, os
nosso conceitos não apreendem nada: o pensamento sem conteúdos são vazios.”
(id.,p. 46).
O racionalismo kantiano pode
ser chamado de racionalismo critico.
“Destarte o racionalismo kantiano...
mantém-se a igual distancia do dogmatismo e do ceticismo. Não é dogmático,
porque recusa a razão humana o poder de conhecer um mundo inteligível, feito de
realidades transcendentais, ou seja, o poder de atingir o absoluto. Mas
tampouco é cético, pois admite que o espírito humano é capaz de chegar a
verdades universais e necessárias.” (idem, p. 46).
Conceito de fenômeno e númeno
Os fenômenos são as coisas, assim como nós as conhecemos.
Os numeno são as coisas em si, tais como são independentes do conhecimento que
temos delas. Para nós não há conhecimento que não seja o do mundo
fenomênico. As exigências da razão prática nos obrigara
apensar no mundo numenal.
Os númenos são as coisas pensadas; não podemos saber o
que o mundo e a alma são em si mesmos; mas com a condição de
unicamente de não nos contradizermos, podemos pensá-los como queiramos.
“Tive de suprimir o saber, a fim de
abri espaço para a crença” (B XXX; TP 24 apud pascal, p. 47).
“E se a moral exige que acreditemos na
liberdade do homem, na imortalidade da alma e na existência de Deus, esta
crença, como diria Alain, nada custará à nossa geometria.” Pascal, 1999, p.
47).
[2] Em filosofia e
lógica, contingência é o status de proposições que não são necessariamente
verdadeiras nem necessariamente falsas. São proposições possíveis.
[3] Condição de conhecimento
a priori, independe da experiência. Mas para constituir-se como conhecimento válido
precisa ser aplicado a experiência.
[4] Antes que estes
conhecimentos (sintéticos a priori) progredissem, não eram “conhecimentos”,
pois não eram conhecidos.
[5] Todo
conhecimento verdadeiro só é possível por meio da experiência.


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