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terça-feira, 14 de julho de 2015

Kant - Crítica da razão pura

Resenha parcial da obra: PASCAL, George. O pensamento de Kant. 6ª. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.




Antonio G. Sobreira

  Kant rejeitou a metafísica tradicional. As incertezas das conclusões metafísicas levaram Kant à ideia da Crítica. Foi a leitura de Hume que o “fez despertar do sono dogmático”. Hume havia argumentado que “a razão é incapaz de pensar a priori,” assim como o “conceito de relação necessária, como é o caso de causa e efeito". Só a experiência poderia engendrar essa ideia de “causa.”  O princípio da causalidade era uma ilusão criada pelo hábito - Hume. 
Era pelas análises das ideias a priori do espírito, ou das ideias inatas, que o racionalismo de Descartes, de Leibniz e de Woff pretendia atingir verdades absolutas e construir uma metafísica.
A crítica de Hume persuadiu Kant a abandonar o “velho dogmatismo”, mas Kant não alimentava simpatia pelos céticos. Kant acha que o ceticismo erra por manifestar indiferença para um tema que não pode ser indiferente a natureza humana. É a metafísica que trata de temas como Deus, alma imortal, liberdade do homem no mundo. A razão não pode limita-se a experiência.
 Mas porque a metafísica não avançou por caminhos seguros, enquanto outras ciências o fizeram?  Por que não apresenta o mesmo grau de certeza das outras ciências, como a matemática e a física? A metafísica pode ser considerada uma ciência?
Kant não elaborou uma nova metafísica, mas atacou o problema pela raiz. Interroga sobre as possibilidades da razão. O que a razão pode conhecer?  A preocupação crítica é não dizer mais do que se sabe. Essa crítica diz respeito a razão pura. A metafísica é possível ou impossível? A razão será examinada. Buscar-se-á a própria razão, suas regras e os limites da sua atividade. 
Kant examina a “razão especulativa”, na sua primeira crítica. E depois ao princípio de nossas ações “a razão prática.” E a razão de nossos juízos estéticos e teleológicos, na “crítica do juízo”. Mas estas últimas não serão tratadas aqui.
 O método de Kant pode ser denominado de método reflexivo (movimento pelo qual o sujeito se volta sobre si mesmo).
(1) Como se explica os conhecimentos racionais e certos  na matemática e na física?
(2) É possível haver tais  conhecimentos na metafísica?
Como a matemática chega ao conhecimento a priori? Assim chegaremos a possibilidade da razão.  As noções da metafísica procura estender o conhecimento além da experiência ( as noções metafísicas são noções a priori). Tales, Galileu, Torricelli, todos se guiaram docilmente pela experiência, acumulando observações esparsas, começaram a interrogar a natureza segundo as exigências da razão, lograram assim, descobrir as leis.
A mudança do método consiste em determinar o objeto consoante a exigência da razão, em vez de por o objeto como uma realidade dada, perante a qual a razão tem que se dobrar. Nosso conhecimento do objeto depende do sujeito conhecente tanto quanto do objeto conhecido. Esta  é a famosa revolução copernicana Kantiana.
Os objetos devem ajustar-se ao nosso conhecimento. Kant substitui a hipótese realista pela hipótese idealista. O Realismo admite que uma realidade nos é dada. Conhecer significa registrar o real. O espírito é passivo nessa operação. No Idealismo, o espírito intervém ativamente na elaboração do conhecimento. O real é resultado de uma construção. Ou seja, o objeto que conhecemos, em parte é obra nossa. “Não conhecemos a priori nas coisas senão aquilo que nós mesmos nelas colocamos”. (Idem, p. 36).

O idealismo transcendental
Vamos precisar a noção de a priori.
Nossos conhecimentos do objeto se dão em forma  de dois elementos:
(1)     Depende do próprio objeto. É a “matéria” do conhecimento.
(2)     Depende do sujeito. É a “forma” do conhecimento.
Conhecer é  dar forma a matéria dada. A matéria é a posteriori, e a forma,  a priori.
Existem conhecimentos a posteriori e conhecimentos a priori. Como distinguir entre ambos? O conhecimento a priori são toda “proposição universal e necessárias. A experiência da origem a “proposições contingentes”. [2] Se nos ativermos à experiência, não poderemos passar para proposições universais. Nossa certeza se baseia apenas nos fatos que podemos constatar. Não podendo passar para uma afirmação universal válida para todos os casos.
Portanto a razão é a fonte única de proposições universais e necessárias. E isso não seria possível se a mente não fosse fonte de conhecimento. É certo que possuímos conhecimentos a priori. Exemplos:
As proposições  da matemática.
O principio da casualidade. Tudo que acontece tem uma causa, é uma proposição universal e necessária.
Nos próprios conceitos empíricos, há a noção  do espaço.
Espaço e substancia são a priori.
Nem todos os nossos conhecimentos a priori têm o mesmo valor. Ciência e metafísica, são diferentes.  No primeiro há acordo, no segundo não.
É necessário fazer distinção entre juízo analítico e juízo sintético. (PASCAL, p. 38).
Todo juízo de experiência é sintético.
 A experiência nos ensina a acrescentar certos atributos aos nossos conceitos. “Todos os corpos são pesados.” Acrescenta ao conceito corpo o atributo “peso”.
Os juízos analíticos são a priori. Pois não há nenhuma necessidade de recorrer a experiência para determinar o que penso num determinado contexto.
A GRANDE DESCOBERTA DE KANT é uma terceira classe de juízos: os juízos sintéticos a priori.[3]
Estes são universais e necessários, como os juízos analíticos, mas além disso, nos permite ampliar os nossos conhecimentos, enquanto os juízos analíticos apenas podem explicá-los ou esclarecê-los.
“O que diferencia os conhecimentos racionais da matemática e da física dos da metafísica é que aqueles são juízos sintéticos a priori, e estes, juízos analíticos.[4] [...] A ciência da natureza contem em si como princípios juízos sintéticos a priori.” (PASCAL, p.39).
“É a tais juízos que a matemática e a física devem o seu caráter de certeza. E foi no exemplo dessas ciências e nomeadamente, no da matemática, que em todo tempo se inspiraram a metafísica.
O problema é de saber se os juízos sintéticos a priori são igualmente possíveis em metafísica. Problema esse que somente a Crítica é capaz de resolver.
“Na metafísica, ultrapassamos ou transpomos toda experiência possível e, por conseguinte, nada temos que possa garantir o valor objetivo dos nossos conhecimentos Esta é uma conclusão sumária da Crítica”.
Consequências
A crítica da razão pura pode ser caracterizada como um inventário das formas a priori do espírito, enquanto faculdade de conhecimento.
Formas a priori são os quadros universais e necessários através dos quais o espírito humano percebe o mundo.  Mas há distinções na forma de conhecer.
(1)     Formas a priori da sensibilidade ou das intuições
(2)     Formas a priori do entendimento ou dos conceitos.

“ A matéria a ser conhecida é ao mesmo tempo dada e ligada no interior das formas a priori. Haverá, pois (1)formas a priori da sensibilidade e (2)formas a priori do entendimento.” (Idem, p. 41).

(1)     As formas a priori da sensibilidade, ou intuições puras, são espaço e tempo. São os quadros ou moldes universais e necessários nos quais e inserem as intuições empíricas (cores, sabores, odores, sentimentos, etc).

Espaço é a forma do sentido externo. O tempo, a forma do sentido interno.

“E, visto como a geometria tem por objeto o espaço, que é uma intuição pura, compreende-se que ela possa  enunciar juízos sintéticos a priori: o caráter intuitivo do espaço explica que tais juízos são sintéticos e, como a intuição é pura, a síntese é a priori.”

(2)     Formas a priori do entendimento (ou dos conceitos), são as categorias, ou maneiras próprias ao espírito humano de conceber as coisas, isto é, de ordenar o múltiplo dado na intuição.
      Os conceitos de substância e causalidade são categorias.
      Eu sei a priori que todo fenômeno é causado, e que em toda mudança alguma coisa se conserva.
“Assim se explica a certeza dos princípios da física: nada mais fazem do que enunciar aquilo que o espírito exige das coisas para que possam  ser conhecidas.” (idem, p. 41).
Mas, estas categorias não são mais do que formas, ou seja, maneira de ligar. Por si mesmas nada nos dão a conhecer, e somente as intuições sensíveis podem dar um conteúdo e uma multiplicidade a ser ligada.
            O espírito humano é constituído de formas,  tal que lhe é impossível deixar de fazer um uso suprassensível dos referidos conceitos e de captar por meio deles alguma realidade transcendente.
No mundo sensível não percebemos senão relações, pois conhecer é ligar; mas o espírito aspira ao absoluto, ao incondicionado. Pode-se chamar-se razão ao entendimento enquanto pretende captar o incondicionado, e ideias, aos conceitos obtidos nesse tipo de pesquisa.
Assim, o mundo, considerado como um todo, é uma ideia da razão; igualmente a alma, considerada como substancia existente em si mesma, e Deus, substancia das substâncias e causa das causas, são ideias da razão.
Mas como as categorias não tem outros conteúdos que não sejam os dados das intuições sensíveis[5], este uso suprassensível que delas faz a razão, embora muito natural, é ilegítimo.
O entendimento é constitutivo, quer dizer: os seus conceitos dão forma à experiência; a razão é reguladora; quer dizer: as suas ideias orientam a marcha do pensamento para o absoluto, mas não permite atingi-lo. A metafísica é uma ilusão inevitável. Somo levados a pensar a alma, o mundo e Deus; mas não podemos conhecê-lo.

São estes os temas fundamentais da crítica da razão Pura.

1ª Parte -  Estética transcendental
· Formas  a priori da sensibilidade. Como são possíveis os juízos sintéticos a priori da matemática?
2ª Parte – Lógica transcendental
         (1) Analítica – (as formas a priori do entendimento). Como são possíveis os juízos sintéticos a priori da física.
        (2) Dialética – (Ideias da razão).
 É possível haver juízos sintéticos a priori na metafísica?   Kant responde  negativamente.
Consequências mais importantes
Precisando a noção de transcendental
“nunca significa relação do nosso conhecimento com as coisas, mas somente relação com a faculdade cognitiva” (Prolegômenos, p. 63 apud Pascal, p. 43).
“chamo transcendental a todo conhecimento que se ocupa, não propriamente com objetos, mas, em geral, com a nossa maneira de conhecer objetos, enquanto esta deve ser possível  a priori” (B 25;TP 46 apud Pascal, p. 43).
Transcendental se opõe a empírico. O principio de causalidade, por exemplo, é transcendental. E assim se aproxima de transcendente,  que designa o que está para além de toda experiência.
Mas não devemos confundir os termos.
“Um principio transcendental, com efeito, não admite outro uso que não seja o imanente, quer dizer, referente aos objetos de experiência.” (idem, p. 43).
“Um princípio transcendente, ao contrário, pretende ultrapassar o domínio  na experiência”.
“Nesse sentido, o termo transcendental é inteiramente característico da filosofia kantiana, que é precisamente um esforço para descobrir no pensamento os elementos constitutivos da experiência, dos meios de captar e de ordenar o real.” (idem, p, 44).
“não significa aquilo que ultrapassa toda experiência, mas aquilo que, em rigor de expressão, a antecede (a priori), sem outra finalidade que não seja a de possibilitar, exclusivamente, o conhecimento da experiência” (idem, p.45).

Conceito de ideia
“Por ideia entendo um conceito racional necessário, ao qual não pode corresponder nenhum objeto dado pelos sentidos. Assim, os conceitos puros da razão... são ideias transcendentais. São conceitos da razão pura, visto considerarem todo conhecimento empírico como determinado por uma totalidade absoluta das condições. Não são imaginados arbitrariamente, mas nos são dados pela própria natureza da razão, e referem-se de um modo necessário a todo uso do entendimento. Em suma,  são transcendentes e ultrapassam os limites de toda experiência, na qual não poderia haver qualquer objeto adequado à ideia transcendental” (Kant apud Pascal, p. 44).

Conceito de idealismo transcendental
É  a doutrina segundo a qual todo objeto de conhecimento  é determinado a priori pela própria natureza de nossa faculdade de conhecer.
O idealismo  kantiano longe de ter  por duvidoso o valor da experiência, e de procurar a verdade nas ideias do entendimento puro e da razão, como faz o idealismo clássico, considera, ao contrário, que: “todo conhecimento das coisas proveniente só do entendimento puro ou da razão pura não passa de ilusão; só na experiência há verdade” (Kant, p.152 apud Pascal, p. 45).
A favor do empirismo. Não há conhecimento que não proceda da experiência. “Nenhum conhecimento precede em nós a experiência, e todos começam com ela”.
A favor do idealismo clássico. A razão  é por si mesma fonte de conhecimentos, visto que há juízos sintéticos  a priori.
“Conquanto todo nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso deriva, todo ele, da experiência”.
Contra o racionalismo clássico, Kant sustenta que a razão é incapaz de atingir realidades outras que não as sensíveis; conhecer, é conhecer alguma coisa; fora dos objetos do mundo, os nosso conceitos não apreendem nada: o pensamento sem conteúdos são vazios.” (id.,p. 46).
O racionalismo kantiano  pode ser chamado de racionalismo critico.
“Destarte o racionalismo kantiano... mantém-se a igual distancia do dogmatismo e do ceticismo. Não é dogmático, porque recusa a razão humana o poder de conhecer um mundo inteligível, feito de realidades transcendentais, ou seja, o poder de atingir o absoluto. Mas tampouco é cético, pois admite que o espírito humano é capaz de chegar a verdades universais e necessárias.” (idem, p. 46).

Conceito de fenômeno e númeno
Os fenômenos são as coisas, assim como nós as conhecemos. Os numeno são as coisas em si, tais como são independentes do conhecimento que temos delas. Para nós  não há conhecimento que não seja o do mundo fenomênico. As exigências da razão prática nos obrigara apensar no mundo numenal.
Os númenos são as coisas pensadas; não podemos saber o que  o mundo e a alma são em si mesmos; mas com a condição de unicamente de não nos contradizermos, podemos pensá-los como queiramos.
“Tive de suprimir o saber, a fim de abri espaço para a crença” (B XXX; TP 24 apud pascal, p. 47).
“E se a moral exige que acreditemos na liberdade do homem, na imortalidade da alma e na existência de Deus, esta crença, como diria Alain, nada custará à nossa geometria.” Pascal, 1999, p. 47).




[1] Ver Pascal. O pensamento de  Kant. Vozes. p. 32.
[2] Em filosofia e lógica, contingência é o status de proposições que não são necessariamente verdadeiras nem necessariamente falsas. São proposições possíveis.
[3] Condição de conhecimento a priori, independe da experiência. Mas para constituir-se como conhecimento válido precisa ser aplicado a experiência.
[4] Antes que estes conhecimentos (sintéticos a priori) progredissem, não eram “conhecimentos”, pois não eram conhecidos.
[5] Todo conhecimento verdadeiro só é possível por meio da experiência.



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