O ensaio reflexivo a ser resenhado
intitula-se “Educação após Auschwitz” do renomado Theodor Adorno, tradução de
Wolfgang Leo Maar.
Por Antonio G.Sobreira
O referido artigo aborda a questão da
educação, civilidade e barbárie com muita
propriedade, de forma clara e objetiva. Fala de uma educação que possa prevenir
um novo Auschwitz. Procura diagnosticar os motivos que levaram a esta barbárie
ou incivilidade que representou Auschwitz e, embora não proponha um projeto
educacional completo, faz algumas indicações, sinaliza aspectos relevantes, faz
propostas interessantes que deveriam ser seriamente consideradas. A temática central do artigo pode ser
sintetizada na própria frase inicial do artigo “A exigência que Auschwitz não
se repita é a primeira de todas para a educação”. O artigo começa falando
acerca da pouca consciência existente na sociedade em geral do que representou
Auschwitz. Analisa inicialmente como a sociedade foi capaz de produzir
Auschwitz, mostra que a própria sociedade produz a incivilidade através de uma
psicologia de massa, de um nacionalismo agressor, uma pressão civilizatória
originando raiva contra a civilização desencadeando rebelião violenta e irracional,
principalmente contra os mais fracos. Para contrapor esta realidade algumas
sugestões são feitas, tal como a educação infantil esclarecida. Mas o que o
autor identificará como ponto nevrálgico é a questão da diferença cultural
ainda persistente entre a cidade e o campo. Para mudar esta situação o autor
apresenta algumas propostas.
A
exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação,
assim começa o artigo. O autor admirasse da pouca atenção que foi dada a esse
assunto, da pouca consciência existente em relação a essa exigência. Poderia a sociedade regredir ao ponto de
chegar a um estado de barbárie? Adorno coloca que não só é apenas uma
possibilidade remota, mas já foi uma realidade bem recente e que, se suas
causas não forem diagnosticadas e tratadas, pode haver novos Auschwitz. Toda
potência desencadeadora da incivilidade encontra-se na própria civilização. Por
isso nenhuma meta educacional é mais
importante do que esta, que Auschwitz não se repita.
Milhões
de pessoas inocentes foram assassinadas de uma forma planejada. Isso não pode
ser amenizado, não pode ser visto meramente como um fenômeno superficial ou uma
aberração no curso da história.
E
o que preocupa o autor é que a estrutura básica da sociedade que produziu Auschwitz
não mudou nestes 25 anos. O autor aponta
algumas causas ou raízes que deram origem aquele genocídio em massa. Entre elas
a ressurreição do nacionalismo agressor presente em alguns países a partir do
século XIX. Na tentativa de contrapor a
repetição de Auschwitz, Adorno propõe
uma investigação a ser feita nos próprios perseguidores aprofundando até mesmo
ao ponto de fazer uma análise psicológica dessas pessoas. É preciso “buscar as
raízes nos perseguidores e não nas vítimas”.
O mesmo coloca “A educação tem sentido unicamente como educação dirigida
a uma autorreflexão critica. Contudo, na medida em que, conforme os
ensinamentos da psicologia profunda, todo caráter, inclusive daqueles que mais
tarde praticam crimes, forma-se na primeira infância, a educação que tem como
objetivo evitar a repetição precisa se concentrar na primeira infância.” Assim,
o autor destaca a importância da educação na infância.
O
mal estar da cultura, tese de Freud, também contribui ao diagnosticar as
causas, e mais do que o mesmo poderia imaginar, pois esta pressão civilizatória
aumentou em grande escala. Como o próprio autor afirma:
“A
pressão do geral dominante sobre tudo que é particular, os homens
individualmente e as instituições singulares, tem uma tendência a destroçar o
particular e o individual juntamente com
seu potencial de resistência .”
Essas
pressões redundam em um esforço de
contrapor-se as mesmas o que faz com que
sigam forças ou ideologias sedutoras e a atos cegos e criminosos. O
esforço que procura escapar dessa pressão civilizatória converte-se em raiva
contra a civilização e assim ela se torna alvo de uma rebelião violenta e
irracional.
Adorno
não pretende seque elaborar um esboço de um projeto educacional que impeça um
novo Auschwitz. No entanto o autor fala sobre uma educação
infantil, de um esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural
e social que não permita tal repetição. De forma que os motivos que levaram ao horror se tornem conscientes. Ainda
sobre os motivos, nos Estados Unidos o espírito germânico de confiança na
autoridade foi responsabilizado pelo Nazismo e por Auschwitz. Mas parece ser
superficial tal afirmação.
Outras
pessoas citam o conceito de vínculos de
compromisso. A ausência de compromisso das pessoas seria responsável pelo
que aconteceu. Porem o autor entende que este ponto é ilusório, pois vínculos
de compromisso faz tornar-se dependente
de mandamentos, de formas que não são assumidas pela razão própria do
indivíduo. No contexto dos compromissos a consciência moral é substituída por autoridades exteriores.
O
autor, ao tratar sobre a questão da autoridade e barbárie, cita um livro O
Estado da SS, de Eugen Kogon. Kogon afirma que os algozes do campo de
concentração em que ele mesmo passou anos eram em sua maioria jovens filhos de
camponeses. A diferença cultural ainda
persiste entre a cidade e o campo constitui uma das condições do horror embora
não seja a única nem a mais importante. O autor assinala a defasagem cultural e
pensa que a desbarbarização do campo constitui um dos objetivos educacionais
mais importantes.
Porem,
não passa despercebida a questão da violência nas grandes cidades - “tendência de regressão – ou seja, pessoas com
traços sádicos reprimidos – são produzidas por toda parte pela tendência social
geral. Neste contexto, o autor menciona
a questão relação perturbada e
patogênica com o corpo que o mesmo e Horkheimer descrevem na Dialética do
Esclarecimento.
O
autor afirma que “Em cada situação em que a consciência é mutilada, isso se
reflete sobre o corpo e a esfera corporal de uma forma não livre e que é
propicia a violência. Basta prestar atenção em um certo tipo de pessoa inculta
como até mesmo a sua linguagem – principalmente quando algo é criticado ou
exigido – se torna ameaçadora, como se os gestos da fala fossem de uma
violência corporal quase incontrolada.”
Adorno destaca o valor do esporte que deveria
ser melhor explorado por uma psicologia social critica. Embora a prática
esportiva seja ambígua, pois tanto pode dar
lugar a um barbarismo como pode ser incentivadora de um cavalheirismo e
do respeito pelo mais fraco. A questão é analisar essas ambiguidades e
aplicá-las a vida esportiva de forma a ter sua influência na educação.
O
autor ainda apresenta o problema da coletivização cega onde destaca que o mais
importante é contrapor ao poder cego de todas as coletivizações cegas. Esta
coletivização é o que origina os hábitos populares incluindo as brutalidades e forma de hábitos.
Desaconselha estes hábitos populares, ritos de iniciação que infringem dor
física – muitas vezes insuportável a uma
pessoa, como por exemplo os trotes de
qualquer ordem pois, o autor as ver como precursoras da violência Nazista.
O
autor relaciona estes atos com o pretenso ideal relevante de uma educação tradicional que valoriza a
severidade. Uma educação baseada na força, vontade e disciplina. Em vez disso
deveria ser promovida uma educação que
não premiasse a dor ou a capacidade de suportá-la.
Ainda
sobre os coletivos cegos, o autor assiná-la que pessoas que se enquadram
cegamente em coletivos convertem a si mesmos e aos outros em coisas. Tendem a
tratar os outros como massas amorfas. Adorno denomina as pessoas que agem desta
forma como “caráter manipulador’”. A personalidade autoritária manifesta fúria
organizada, ausência de emoção e realismo exagerado. Ainda demonstram
indiferença ao conteúdo de tais ações. Valorizam a atividade, eficiência e culto do homem ativo.
Manifestam uma consciência coisificada e veem a tortura como adaptação
controlada e acelerada das pessoas ao coletivo.
Portanto
é importante esclarecer o modo de construção do caráter manipulador para
impedir a sua formação. Duas razões são
apresentadas como raízes desta construção: o orgulho e a consciência
coisificada. A consciência coisificada está estreitamente relacionada com a
técnica. E o que estas construções produzem? Pessoas tecnológicas, fetichização
da técnica, pessoas incapazes de amar e amor absorvido por coisas. Em fim,
frieza de um modo peculiar. Profunda indiferença com o que acontece com os
outros. Incapacitados assim de identificação com o outro. Sim, uma verdadeira incapacidade de amar. Sem
falar da participação oportunista e a
indiferença frente ao destino dos outros.
Mas
o autor não quer pregar o amor. Pensa que sua pregação é vã. Pois a falta de
amor é a deficiência de todos. O cristianismo que procurou pregá-lo fracassou,
pois não conseguiu apagar a frieza que tudo penetra. Seu fracasso se deu por não mudar a ordem
social, que produz e reproduz a frieza. Incentivar o amor de forma imperativa
só perpetua a frieza.
Próximo
de finalizar seu Adorno ainda discorre sobre algumas possibilidades de conscientização
dos mecanismos subjetivos sem os quais Auschwitz jamais teria ocorrido.
Conhecer estes mecanismos é uma necessidade, bem como conhecer a defesa
estereotipada daqueles que afirmam que tal acontecimento não foi tão grave
assim. Estes que afirmam tal absurdo talvez estejam prontos para assistir ou
colaborar para que tudo aconteça de novo. É preciso ficar atento, pois “em uma época em
que o nacionalismo e antiquado, os chamados movimentos de renovação nacional
são, ao que tudo indica particularmente sujeitos a práticas sádicas.”
Em
fim, o cetro de toda educação política deveria ser que Auschwitz não se repita.
Isso só será possível quando esta questão ocupar o patamar da mais relevante
questão sem medo de contrariar quaisquer potências. Quando se transformar em
uma sociologia identificadora das forças políticas que está na base. Precisaria
analisar criticamente o direito do Estado acima dos seus integrantes, isso só
já potencializa a presença do terror. Embora todas as medidas possam ser tomadas, o
autor considera difícil evitar o reaparecimento de assassinos de gabinete.
É
notória a propriedade com que o autor trata seu tema. Visto que a sociedade
atual manifesta indícios de um comportamento perturbador crescente em frente ao
processo de massificação. O mesmo possui a verdade ao seu favor quando afirma
que a questão que produziu Auschwitz não está sendo tratada como deveria o que
realmente é assustador. Isso é facilmente demonstrado pela ausência dessa
temática em seminários, nas universidades quase nunca se fala sobre o assunto.
Guerras que matam milhões em grande escala
sempre existiram. Por que Auschwitz deveria receber uma atenção diferenciada?
Certamente por sua singularidade, pois aqui, não se trata de morte em combate,
mais um genocídio planejado milimetricamente sem nenhuma chance de defesa o que
amplia a magnitude da crueldade, barbaridade e desumanidade praticada contra as
vítimas inocentes e indefesas. Mas ao
analisar a sociedade atual percebe-se
que o tema é bastante atual, basta ver o índice de violência crescente na
sociedade moderna, o que nada mais são do que pequenos Auschwitz em pleno
século XXI. Adorno esta certo ao relacionar
a educação, civilidade e barbárie. É preciso uma educação libertadora.
Creio ser esta sua proposta bastante plausível. Será que os sistemas modernos
de educação estão atentos a isso?
O
autor diagnostica bem as causas, mas pouco apresenta soluções ou pelo menos as
apresenta de forma muito geral. Mas não podemos esperar muito de um ensaio a
não ser que pincele as causas. Toca na
essência do problema quando fala do egoísmo e frieza presente na sociedade,
parece conhecer a resposta ao assinalar a falta de amor, por outro lado parece
descartar esta possibilidade ao ser contra a pregação de tal amor pela
simples razão do mesmo ser uma carência
de todos. É lógico que as causas que
produziram Auschwitz são complexas e dizer que foi falta de amor não equaciona
nem resolve o problema. Neste “sentido’
pregar o amor não é suficiente. Por outro lado o conhecimento puramente
intelectual das causas também não parece ser a única solução.
Quem
disse que o conhecimento das causas fundamentais vai prevenir um novo
Auschwitz? Sem dúvida é importante conhecer as causas, mas até que ponto isso é
possível? Até que ponto elas serão verdadeiramente apontadas? Deve haver um apelo a razão, mas dever haver
um apelo ao sentimento de humanidade, um apelo ao amor que por mais escasso que
esteja, deve ser sim, alimentado de todas as formas, pregado de muitas maneiras
e principalmente através de uma prática que reconheça no outro a si mesmo.
Deve-se salientar que não foi a ignorância do
homem ou do jovem do meio rural que produziu tal genocídio, mas s mentes
“brilhantes” e intelectuais fundamentados em falsas teorias, ideologias chulas
que arquitetaram, planejaram e executaram com ajudada de gente “esclarecida”, e
claro, com ajuda das massas amorfas, tal barbaridade.
Os jovens da zona rural foram cúmplices como
todos os jovens escolarizados também o foram. Lembrando que nem todos os
alemães, cultos ou ignorantes, concordaram com o holocausto. Não há uma relação
direta entre vida no campo e barbárie. Haja vista que encontramos muita gente
humana em tais ambientes e muitos brutos
nas grandes cidades. A educação pode humanizar sim o homem, mas é
preciso saber de que tipo de educação estamos falando. Não de qualquer uma ou
de qualquer forma. Uma educação que vise o homem como um todo e que o torne
sofisticado. Uma educação que forme o homem e o cidadão, que trabalhe todas as
suas potencialidades, que humanize este homem, que o emancipe e o torne um sujeito
prudente para viver uma vida com dignidade. Esta é a educação exigida para que
Auschwitz não se repita.
Este
artigo será útil a todos os que se ocupam com
a educação, professores alunos, também aos professores e acadêmicos do curso da área de sociologia e porque não de todas as áreas,
visto que todos precisam estar conscientes das causas que geram o horror e das formas de preveni-lo.
Theodor
Ludwig Wiesengrund-Adorno, nasceu em 11 de setembro de 1903 na cidade de
Frankfurt, Alemanha e faleceu de problemas cardíacos em 06 de agosto de 1969,
no mesmo país. Alemão de origem judaica estudou na Universidade de Frankfurt
Filosofia, Musicologia, Sociologia e Psicologia. Em 1933, emigrou para a
Inglaterra devido à perseguição aos judeus, por alguns anos viveu exilado.






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