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terça-feira, 14 de julho de 2015

Resenha do ensaio “Educação após Auschwitz”



O ensaio reflexivo a ser resenhado intitula-se “Educação após Auschwitz” do renomado Theodor Adorno, tradução de Wolfgang Leo Maar.

Por Antonio G.Sobreira


            O referido artigo aborda a questão da educação, civilidade e barbárie com  muita propriedade, de forma clara e objetiva. Fala de uma educação que possa prevenir um novo Auschwitz. Procura diagnosticar os motivos que levaram a esta barbárie ou incivilidade que representou Auschwitz e, embora não proponha um projeto educacional completo, faz algumas indicações, sinaliza aspectos relevantes, faz propostas interessantes que deveriam ser seriamente consideradas.    A temática central do artigo pode ser sintetizada na própria frase inicial do artigo “A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação”. O artigo começa falando acerca da pouca consciência existente na sociedade em geral do que representou Auschwitz. Analisa inicialmente como a sociedade foi capaz de produzir Auschwitz, mostra que a própria sociedade produz a incivilidade através de uma psicologia de massa, de um nacionalismo agressor, uma pressão civilizatória originando raiva contra a civilização desencadeando rebelião violenta e irracional, principalmente contra os mais fracos. Para contrapor esta realidade algumas sugestões são feitas, tal como a educação infantil esclarecida. Mas o que o autor identificará como ponto nevrálgico é a questão da diferença cultural ainda persistente entre a cidade e o campo. Para mudar esta situação o autor apresenta algumas propostas.
A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação, assim começa o artigo. O autor admirasse da pouca atenção que foi dada a esse assunto, da pouca consciência existente em relação a essa exigência.  Poderia a sociedade regredir ao ponto de chegar a um estado de barbárie? Adorno coloca que não só é apenas uma possibilidade remota, mas já foi uma realidade bem recente e que, se suas causas não forem diagnosticadas e tratadas, pode haver novos Auschwitz. Toda potência desencadeadora da incivilidade encontra-se na própria civilização. Por isso nenhuma  meta educacional é mais importante do que esta, que Auschwitz não se repita.
Milhões de pessoas inocentes foram assassinadas de uma forma planejada. Isso não pode ser amenizado, não pode ser visto meramente como um fenômeno superficial ou uma aberração  no curso da história.



E o que preocupa o autor é que a estrutura básica da sociedade que produziu Auschwitz não mudou nestes 25 anos.  O autor aponta algumas causas ou raízes que deram origem aquele genocídio em massa. Entre elas a ressurreição do nacionalismo agressor presente em alguns países a partir do século XIX. Na  tentativa de contrapor a repetição de Auschwitz, Adorno  propõe uma investigação a ser feita nos próprios perseguidores aprofundando até mesmo ao ponto de fazer uma análise psicológica dessas pessoas. É preciso “buscar as raízes nos perseguidores e não nas vítimas”.  O mesmo coloca “A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma autorreflexão critica. Contudo, na medida em que, conforme os ensinamentos da psicologia profunda, todo caráter, inclusive daqueles que mais tarde praticam crimes, forma-se na primeira infância, a educação que tem como objetivo evitar a repetição precisa se concentrar na primeira infância.” Assim, o autor destaca a importância da educação na infância.

O mal estar da cultura, tese de Freud, também contribui ao diagnosticar as causas, e mais do que o mesmo poderia imaginar, pois esta pressão civilizatória aumentou em grande escala. Como o próprio autor afirma:
“A pressão do geral dominante sobre tudo que é particular, os homens individualmente e as instituições singulares, tem uma tendência a destroçar o particular  e o individual juntamente com seu potencial de resistência .” 
Essas pressões redundam em um esforço de  contrapor-se  as mesmas o que  faz com que  sigam forças ou ideologias sedutoras e a atos cegos e criminosos. O esforço que procura escapar dessa pressão civilizatória converte-se em raiva contra a civilização e assim ela se torna alvo de uma rebelião violenta e irracional.
Adorno não pretende seque elaborar um esboço de um projeto educacional que impeça um novo  Auschwitz.  No entanto o autor fala sobre uma educação infantil, de um esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural e social que não permita tal repetição. De forma que os motivos  que levaram ao horror se tornem conscientes. Ainda sobre os motivos, nos Estados Unidos o espírito germânico de confiança na autoridade foi responsabilizado pelo Nazismo e por Auschwitz. Mas parece ser superficial tal afirmação.
Outras pessoas citam o conceito de vínculos de compromisso. A ausência de compromisso das pessoas seria responsável pelo que aconteceu. Porem o autor entende que este ponto é ilusório, pois vínculos de compromisso  faz tornar-se dependente de mandamentos, de formas que não são assumidas pela razão própria do indivíduo. No contexto dos compromissos a consciência moral é substituída  por autoridades exteriores.
O autor, ao tratar sobre a questão da autoridade e barbárie, cita um livro O Estado da SS, de Eugen Kogon. Kogon afirma que os algozes do campo de concentração em que ele mesmo  passou  anos eram em sua maioria jovens filhos de camponeses.  A diferença cultural ainda persiste entre a cidade e o campo constitui uma das condições do horror embora não seja a única nem a mais importante. O autor assinala a defasagem cultural e pensa que a desbarbarização do campo constitui um dos objetivos educacionais mais importantes.
Porem, não passa despercebida a questão da violência nas grandes cidades -  “tendência de regressão – ou seja, pessoas com traços sádicos reprimidos – são produzidas por toda parte pela tendência social geral. Neste contexto, o autor  menciona a questão  relação perturbada e patogênica com o corpo que o mesmo e Horkheimer descrevem na Dialética do Esclarecimento.
O autor afirma que “Em cada situação em que a consciência é mutilada, isso se reflete sobre o corpo e a esfera corporal de uma forma não livre e que é propicia a violência. Basta prestar atenção em um certo tipo de pessoa inculta como até mesmo a sua linguagem – principalmente quando algo é criticado ou exigido – se torna ameaçadora, como se os gestos da fala fossem de uma violência corporal  quase incontrolada.”
 Adorno destaca o valor do esporte que deveria ser melhor explorado por uma psicologia social critica. Embora a prática esportiva seja ambígua, pois tanto pode dar  lugar a um barbarismo como pode ser incentivadora de um cavalheirismo e do respeito pelo mais fraco. A questão é analisar essas ambiguidades e aplicá-las a vida esportiva de forma a ter sua influência  na educação.

O autor ainda apresenta o problema da coletivização cega onde destaca que o mais importante é contrapor ao poder cego de todas as coletivizações cegas. Esta coletivização é o que origina os hábitos populares incluindo  as brutalidades e forma de hábitos. Desaconselha estes hábitos populares, ritos de iniciação que infringem dor física – muitas vezes insuportável  a uma pessoa,  como por exemplo os trotes de qualquer ordem pois, o autor as ver como precursoras da violência Nazista.
O autor relaciona estes atos com o pretenso ideal relevante de uma  educação tradicional que valoriza a severidade. Uma educação baseada na força, vontade e disciplina. Em vez disso deveria ser promovida uma educação  que não premiasse  a dor  ou a capacidade de suportá-la.

Ainda sobre os coletivos cegos, o autor assiná-la que pessoas que se enquadram cegamente em coletivos convertem a si mesmos e aos outros em coisas. Tendem a tratar os outros como massas amorfas. Adorno denomina as pessoas que agem desta forma como “caráter manipulador’”. A personalidade autoritária manifesta fúria organizada, ausência de emoção e realismo exagerado. Ainda demonstram indiferença ao conteúdo de tais ações. Valorizam a  atividade, eficiência e culto do homem ativo. Manifestam uma consciência coisificada e veem a tortura como adaptação controlada e acelerada das pessoas ao coletivo.
Portanto é importante esclarecer o modo de construção do caráter manipulador para impedir a sua formação.  Duas razões são apresentadas como raízes desta construção: o orgulho e a consciência coisificada. A consciência coisificada está estreitamente relacionada com a técnica. E o que estas construções produzem? Pessoas tecnológicas, fetichização da técnica, pessoas incapazes de amar e amor absorvido por coisas. Em fim, frieza de um modo peculiar. Profunda indiferença com o que acontece com os outros. Incapacitados assim de identificação com o outro.  Sim, uma verdadeira incapacidade de amar. Sem falar da participação oportunista e a  indiferença frente ao destino dos outros.
 Mas o autor não quer pregar o amor. Pensa que sua pregação é vã. Pois a falta de amor é a deficiência de todos. O cristianismo que procurou pregá-lo fracassou, pois não conseguiu apagar a frieza que tudo penetra.  Seu fracasso se deu por não mudar a ordem social, que produz e reproduz a frieza. Incentivar o amor de forma imperativa só  perpetua a frieza.
Próximo de finalizar seu Adorno ainda discorre sobre algumas possibilidades de conscientização dos mecanismos subjetivos sem os quais Auschwitz jamais teria ocorrido. Conhecer estes mecanismos é uma necessidade, bem como conhecer a defesa estereotipada daqueles que afirmam que tal acontecimento não foi tão grave assim. Estes que afirmam tal absurdo talvez estejam prontos para assistir ou colaborar para que tudo aconteça de novo.  É preciso ficar atento, pois “em uma época em que o nacionalismo e antiquado, os chamados movimentos de renovação nacional são, ao que tudo indica particularmente sujeitos a práticas sádicas.”
Em fim, o cetro de toda educação política deveria ser que Auschwitz não se repita. Isso só será possível quando esta questão ocupar o patamar da mais relevante questão sem medo de contrariar quaisquer potências. Quando se transformar em uma sociologia identificadora das forças políticas que está na base. Precisaria analisar criticamente o direito do Estado acima dos seus integrantes, isso só já potencializa  a presença do terror.  Embora todas as medidas possam ser tomadas, o autor considera difícil evitar o reaparecimento de assassinos de gabinete.
É notória a propriedade com que o autor trata seu tema. Visto que a sociedade atual manifesta indícios de um comportamento perturbador crescente em frente ao processo de massificação. O mesmo possui a verdade ao seu favor quando afirma que a questão que produziu Auschwitz não está sendo tratada como deveria o que realmente é assustador. Isso é facilmente demonstrado pela ausência dessa temática em seminários, nas universidades quase nunca se fala sobre o assunto.
 Guerras que matam milhões em grande escala sempre existiram. Por que Auschwitz deveria receber uma atenção diferenciada? Certamente por sua singularidade, pois aqui, não se trata de morte em combate, mais um genocídio planejado milimetricamente sem nenhuma chance de defesa o que amplia a magnitude da crueldade, barbaridade e desumanidade praticada contra as vítimas inocentes e indefesas.  Mas ao analisar a  sociedade atual percebe-se que o tema é bastante atual, basta ver o índice de violência crescente na sociedade moderna, o que nada mais são do que pequenos Auschwitz em pleno século XXI. Adorno esta certo ao relacionar  a educação, civilidade e barbárie. É preciso uma educação libertadora. Creio ser esta sua proposta bastante plausível. Será que os sistemas modernos de educação estão atentos a isso?
O autor diagnostica bem as causas, mas pouco apresenta soluções ou pelo menos as apresenta de forma muito geral. Mas não podemos esperar muito de um ensaio a não ser que pincele as causas.  Toca na essência do problema quando fala do egoísmo e frieza presente na sociedade, parece conhecer a resposta ao assinalar a falta de amor, por outro lado parece descartar esta possibilidade ao ser contra a pregação de tal amor pela simples  razão do mesmo ser uma carência de todos.   É lógico que as causas que produziram Auschwitz são complexas e dizer que foi falta de amor não equaciona nem  resolve o problema. Neste “sentido’ pregar o amor não é suficiente. Por outro lado o conhecimento puramente intelectual das causas também não parece ser a única solução.
Quem disse que o conhecimento das causas fundamentais vai prevenir um novo Auschwitz? Sem dúvida é importante conhecer as causas, mas até que ponto isso é possível? Até que ponto elas serão verdadeiramente apontadas?  Deve haver um apelo a razão, mas dever haver um apelo ao sentimento de humanidade, um apelo ao amor que por mais escasso que esteja, deve ser sim, alimentado de todas as formas, pregado de muitas maneiras e principalmente através de uma prática que reconheça no outro a si mesmo. Deve-se salientar que não foi a ignorância do  homem ou do jovem do meio rural que produziu tal genocídio, mas s mentes “brilhantes” e intelectuais fundamentados em falsas teorias, ideologias chulas que arquitetaram, planejaram e executaram com ajudada de gente “esclarecida”, e claro, com ajuda das massas amorfas, tal barbaridade.
 Os jovens da zona rural foram cúmplices como todos os jovens escolarizados também o foram. Lembrando que nem todos os alemães, cultos ou ignorantes, concordaram com o holocausto. Não há uma relação direta entre vida no campo e barbárie. Haja vista que encontramos muita gente humana em tais ambientes e muitos  brutos nas grandes cidades.   A educação pode humanizar sim o homem, mas é preciso saber de que tipo de educação estamos falando. Não de qualquer uma ou de qualquer forma. Uma educação que vise o homem como um todo e que o torne sofisticado. Uma educação que forme o homem e o cidadão, que trabalhe todas as suas potencialidades, que humanize este homem, que o emancipe e o torne um sujeito prudente para viver uma vida com dignidade. Esta é a educação exigida para que Auschwitz não se repita.
Este artigo será útil a todos os que se ocupam com  a educação, professores alunos, também aos professores e acadêmicos  do curso da área de  sociologia e porque não de todas as áreas, visto que todos precisam estar conscientes das causas que geram o horror  e das formas de preveni-lo.
Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno, nasceu em 11 de setembro de 1903 na cidade de Frankfurt, Alemanha e faleceu de problemas cardíacos em 06 de agosto de 1969, no mesmo país. Alemão de origem judaica estudou na Universidade de Frankfurt Filosofia, Musicologia, Sociologia e Psicologia. Em 1933, emigrou para a Inglaterra devido à perseguição aos judeus, por alguns anos viveu exilado.

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