RESENHA parcial da obra de Karl
Jaspers, Filosofia da Existência: Conferências pronunciadas na Academia Alemã
de Frankfurt. Rio de Janeiro: Imago Editora.
Na
obra intitulada “filosofia da existência”, Karl Jaspers ressalta a tarefa da
filosofia, nos seguintes termos: “ ... ter em vista a realidade na sua origem e de captar esta realidade
através do modo em que, no pensamento, lido comigo mesmo – em ação
interior”. O autor parece indicar, que
em determinado momento da história, a filosofia se desviou desse objetivo, e, ao tomar consciência desse desvio, procura
encontrar o caminho de volta a realidade. Ressalta que mais precisamente no
século dezenove houve um despertamento nos espíritos, despertamento esse que
gritava por “vida”, pareciam enfadados pelo mero conhecimento, queriam
“realmente viver”. Talvez aqui esteja o
terreno fértil para o desenvolvimento das filosofias existencialistas. Mas esse
retorno a “realidade” também teve seus
percalços e desencaminhamentos.
Nessa
busca de decifrar o real, a filosofia encontrou um forte concorrente, a
ciência. Que, sem exagero, por algum tempo, ofuscou seu brilho, ao ponto da
filosofia ser considerada mais uma
ciência entre outras. E como é próprio da natureza das ciências, se visava
exclusivamente seu “progresso”. A cada
etapa um avanço em direção ao ápice do
conhecimento. A filosofia quis imitar a
ciência na sua exatidão, na sua precisão empírica.
Embora
a realidade estivesse particionada
tornando-se objeto de estudo das várias ciências, a filosofia pensou em abordar
seu objeto de estudo, o todo, com método idêntico das ciências. Era a filosofia
adquirindo ares de uma filosofia científica. Pensaram em uma epistemologia e
uma metafísica que pudessem ser universalizadas através do método científico.
Ao assim fazer, estava fazendo da visão científica a única verdadeira.
Mas a
filosofia nunca foi isso, uma ciência detentora de uma verdade exclusiva. Nem
mesmo um conjunto de conhecimento objetivo sistematizado, concluído em suas
etapas. Alguém percebeu o desvio, percebeu que essa filosofia científica não era a filosofia autêntica. Anelava-se por
uma filosofia com suas raízes fincadas na vida.
Ao se
eleger a ciência como suficientemente capaz de dar aquilo que em vão se buscava
na filosofia, erros foram cometidos. Pensaram que a ciência poderia responder a
questão “do objetivo ou sentido da vida”. Mas a ciência não podia se pronunciar
sobre o tipo de conduta, sobre a forma correta de se viver, se devemos ser
éticos ou não, se devemos ter esperança ou não. O que a ciência pretendia
saber, não era objeto de pesquisa científica, mas objeto de fé. Ao esperar em
vão tais respostas da ciência, a tendência era uma paralisação da vida. Assim, restavam
duas alternativas, ou uma fé cega na ciência ou um antagonismo em relação a
ela.
Mas
como parece verdadeiro o dito “o conhecimento purifica-se a si mesmo”, irrompeu
forças dentro da própria ciência que desconfiou dessa filosofia científica. E
assim surge uma crítica capaz de enxergar as diferenças entre filosofia e
ciência.
Alguns
acontecimentos, como as novas descobertas no campo da teoria quântica
relativizou as certezas da visão mecanicista, esse e outros acontecimentos
ocorridos no âmago das ciências abalou a pretensa certeza das verdades
científicas, provocando um verdadeiro colapso das certeza.
Mas
Weber anunciara que era um erro pensar
que a ciência podia descobrir e provar o que devia ser feito. A ciência tem
integridade apenas como ciência isenta de valores. Mas, como bem salientou Weber, esta ciência
liberada de valores, acha-se, a sua vez, sempre dirigida por seus próprios
valores, ao selecionar seus problemas e objetos de estudo.
Assim
o processo de filosofar contemporâneo esta condicionado por esta
experiência havida pela ciência. Resta
um caminho a ser percorrido rumo ao
verdadeiro filosofar. E para tal é preciso delinear claramente o que é
ciência e o que é filosofia.
O
autor do texto aponta, primeiramente os limites da ciência assim:
"A
cognição da ciência diz respeito a coisas, a objetos, ao particular, não ao ser
em si mesmo. Assim não pode oferecer objetivos, ou qualquer valor válido a
vida. Não pode lidar com categorias como
verdadeiro e legítimo. A ciência faz crescer o conhecimento mas não pode dizer
para onde deve se dirigir, ou como aplicá-lo. A ciência precisa do aconselhamento
da filosofia. Uma não preincide da outra. Mas não podem ser confundidas. A
tarefa atual é estabelecer sua verdadeira unidade, seguida de sua separação. O
ato de filosofar não pode ser nem idêntico nem oposto ao pensamento científico.
A
ciência ao se dedicar a pesquisa produz o conhecimento factual dos
objetos. A ciência ensina o modo como as
coisas são. A filosofia precisa do conhecimento científico para atualizar seu
conhecimento do mundo.
A
filosofia como busca da verdade deve adotar a atitude ou o enfocamento
científico. Deve se pautar por métodos,
que permitam adquirir um conhecimento objetivo da vida, mas ao mesmo tempo deve
estar aberto a críticas, deve tomar consciência da sua insuficiência de ter a
explicação final. A atitude científica implica que o cientista esteja preparado para as críticas. Para este
a critica é uma necessidade vital. Ao afirmar que a filosofia deve adotar uma
atitude científica, significa que deve estar preparada para ser criticada e
criticar a si mesma. Quem foge da crítica não tem nenhuma vontade de conhecer.
Ressalta-se
a importância de se elucidar os limites e do significado da ciência, porque daí
emerge a independência da origem da filosofia. Jaspers afirma “A perda da
atitude científica e do enfocamento científico significa também a perda da
veracidade no filosofar”.
É
necessário para a filosofia permanecer junto a ciência, o que significa que
deve manter a crítica, a fim de não cair em dogmatismos tornando-se uma
pseudofilosofia. Desde modo, viver filosoficamente é ter espírito crítico
científico são duas coisas que não devem ser separadas.
Mas o
pensar filosófico não pode ser idêntico ao pensar científico. A filosofia deve
pensar diferente de todas as outras ciências. Deve ser um pensar que não
produza apenas um acumulo de conhecimento que vai se superando ou sobrepondo a
cada fase do desenvolvimento científico-tecnológico. Considerando o
conhecimento anterior ultrapassado, irrelevante. Não significa tão pouco olhar
para as filosofias do passado e considerá-las doutrinas prontas acabadas. O
pensar filosófico deve mudar a forma de
viver e de ver o mundo. O pensar
filosófico deve se transformar na experiência da própria realidade. E isso deve ser alcançado por meio de um
pensar provisório, preparatório. Nunca definitivo, para não cair no erro do
dogmatismo. Pensar reflexivamente por meio de um método, isso é filosofia.
Sim a
filosofia requer um pensar reflexivo, teórico, razoável, deve ter o espírito
crítico das ciências, mas esta prática não é científica. Pode-se deduzir com
base no texto de Jaspers que a filosofia é uma prática teórica não científica.
A filosofia não pode ser demostrada por meio da lógica matemática, nem provada
empiricamente como a física. Mas o próprio fato de existirem
tantas filosofias, uma sobrepondo-se a outra, um filósofo tentando refutar tese de um outro, isso já é suficiente para percebermos
que filosofia não é uma prática científica ao modo das ciências empíricas. Isso
nos leva pensar que em filosofia devemos
desconfiar das certezas, essas provem certamente de espíritos dogmáticos. Como
diria Sponville "em filosofia tudo é incerto, inclusive o fato de que tudo seja
incerto”. Nesse ponto creio que Sponville poderia concordar com Jaspers quando
retrata ao pensar filosófico como um pensamento provisório, sempre pronto a
ser criticado. Assim, a filosofia não parece ser ciência
(ser certeza), nem, a dúvida, mas o próprio pensamento que tem no ser e no
mundo seus objeto de estudo e reflexão.
Por Antonio G.Sobreira


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