Resenha do livro: Löwy, Michael. Ideologias e ciência social: elementos para uma análise marxista. São Paulo: Cortez, 2008.
O positivismo
Ao tratarmos acerca da constituição da
Antropologia como ciência, precisamos antes compreender o desenvolvimento das
chamadas Ciências Sociais. Pois a antropologia se inscreve nessa categoria,
sendo ela uma das ciências humanas.
No início de nosso
estudo encontraremos o Positivismo. Ao tratarmos do positivismo iremos contextualizá-lo
como uma teoria social pertencente às Ciências Humanas. Em seguida
apresentaremos os principais característicos e seus pressupostos
epistemológicos. Contemplaremos o pensamento de Max Weber, que em alguns
aspectos, também se insere dentro do positivismo.
O termo epistemologia
deriva do grego “epistemi” e
significa ciência. Opõe-se a “doxa” que significa opinião. A epistemi pretende ser um conhecimento
certo, verdadeiro. A ciência que tratava do homem antes do século XIX era a
filosofia, utilizando o método especulativo utilizado pela metafísica. Na
modernidade a filosofia como metafísica
entra em crise. Kant fará uma
critica à razão pura cujos resultados foram que a metafísica não se
constitui uma ciência como a matemática
e a física. Não é capaz de produzir juízos
sintéticos a priori, como o faz a matemática e a física. Embora ideias de
Deus, mundo, liberdade, alma possam ser pensadas, não podem ser conhecidas. A
metafísica pensada como os dogmáticos é uma ilusão, um não conhecimento. Assim
surge um espaço vazio. A filosofia se viu incapaz de dizer o que é o homem.
Este espaço vazio será ocupado pelas ciências humanas, estas com grande
prestígio derivado do êxito obtido no campo da matemática e física, pretenderá
ser a detentora do verdadeiro conhecimento do mundo e do homem.
Notamos aqui uma
mudança de método. Abandona-se o método especulativo
(filosofia) e adota-se o método da observação,
da empiria. Varias ciências surgiram na tentativa de dar conta do humano
(sociologia, antropologia, história, geografia, etc.), mas todos tendo como
referencia as ciências naturais. Esperava-se alcançar nas ciências humanas o
mesmo grau de objetividade das ciências naturais. O positivismo é uma proposta
teórico-metodológica com pretensão de constituir-se como ciência capaz de explicar as relações e
fenômenos social. A problemática subjacente que perpassa nosso estudo é: É possível uma ciência humana
isenta de valores, dito de outro modo, capaz de alcançar objetividade tal qual
as ciências naturais. O positivismo pode ser explicado a partir de três ideias
principais ou hipóteses fundamentais:
a) A
sociedade humana é regulada por leis naturas, imutáveis, ou seja, não sofre
influências da vontade ou ação humana. Essas leis regulamentam a vida social,
econômica e política e são leis regulamentam a vida social, econômica e
política e são do mesmo tipo que as leis naturais.
b) O método para conhecer a sociedade são os
mesmos utilizados para conhecer a natureza.
c) Assim
como as ciências naturais são ciências objetivas. Livres de juízos e valores,
as ciências humanas devem ser do mesmo tipo, ou seja, devem ser objetivas. Os
valores são empecilhos a objetividade, são contrários, portanto indesejáveis
nesse campo.
Talvez tenhamos aqui
um elemento utópico, pois o positivismo “afirma a necessidade e a possibilidade
de uma ciência social completamente desligada de qualquer vínculo com as
classes sociais, com as posições políticas, os valores morais, as ideologias, as
utopias, as visões de mundo”. (LOWY, 1985, p. 36).
O positivismo
pretende completa isenção de
preconceitos para as ciências humanas. Sendo filha do Iluminismo, entendemos
seus motivos, ao compreendermos o contexto o qual estava inserido, pois lutava
contra a ideologia dominante da época, a ideologia clerical, feudal,
absolutista. No primeiro momento, o positivismo se mostra possuidora de uma caráter utópico,
crítico e até certo ponto
revolucionário.
O primeiro
representante do positivismo foi Condorcet (1743-1794) , que postulou que a
ciência da sociedade, deve tornar o caráter de uma matemática social, ou seja,
deveria ser preciso e rigoroso, objetivo. Considerava o conhecimento da física
um modelo de ciências isentas de valor
ou paixão, assim deveria ser as ciências humanas.
Em seguida temos
Saint-Simon (1760-1825), discípulo de Condorcet. Esse formulou uma ciência
social segundo o modelo biológico (fisiológico). Sua reflexão tem caráter
crítico utópico. Para ele algumas classes são parasitas do organismo social,
uma referencia à aristocracia e ao clero. Também e caracteriza como combatente
das classes dominantes.
Com Augusto Conte
(1798-1857) temos uma mudança, pois este criticava, pois este criticava seus
antecessores em virtude de seu caráter critico e negativo. Para Conte o
conhecimento deveria ser positivo. O positivo aqui soa quase como conservador.
Embora continue a tradição anterior, considera a ciência natural como paradigma
a ser perseguido, chama sua concepção de “física social”, é uma ciência que
estudara os fenômenos sociais. Esses fenômenos são submetidos a leis
invariáveis. Essas leis são naturais. Na economia é natural que as riquezas se
acumulem nas mãos de poucos e o proletariado deve se conformar com tais leis
imutáveis. Vemos aqui como as ideias de Conte refletem os interesses da nova
burguesia já estabelecida. Max vai criticar a existência de tais leis.
Emile Durkheim foi um
sociólogo no sentido pleno. Por isso o positivismo depende mais deste do que de Conte. Para ele o objetivo da
sociologia era estudar fatos que obedecem aleis sociais, leis invariáveis do
mesmo tipo que as leis invariáveis da natureza. O método era o mesmo.
O cientista social deve
por de lado suas prenoções antes de iniciar sua pesquisa. Deve deixar-se
conduzir pela imparcialidade científica, o sangue-frio. Fazer calar as paixões.
Esta tese é mantida por todos os positivistas. É claro que essa imparcialidade
não é conseguida nem mesmo por Durkheim, que deixa claro seus valores
conservadores em sua obra As Regras do
Método Sociológico.
Passemos a análise de
Max Weber. Este foi um autor
positivista, mas com algumas divergências.
Ele acredita como todo positivista, a possibilidade de uma ciências
social livre de juízos de valor.
Weber considerava que toda ciência da
sociedade, da história e da cultura implica uma relação com os valores que
servem de ponto de partida para a
investigação científica. Assim não
considerava algo negativo estarem
presentes no inicio da pesquisa os valores. Os valores são pressupostos indispensáveis a qualquer investigação. Determinam
a seleção do objeto, informa a direção da pesquisa, irão fornecer a
problemática, ou seja, as perguntas que serão feitas.
Porem num segundo
momento, o da resposta, Weber considera que as ciências sociais devem ser
livres de valor, deve ser neutras. A
investigação empírica deve submeter-se a leis ou regras objetivas e universais
da ciência.
“Deste modo, os pressupostos
da pesquisa são subjetivos, depende de valores,
mas os resultados da investigação devem ser inteiramente objetivos, isto
é, válidos para qualquer investigador.” (LOWY, 1985, p.50).
Referência
Resenha do livro: Löwy, Michael. Ideologias e ciência social: elementos para uma
análise marxista. São Paulo: Cortez, 2008.


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