VOLTAIRE: CONSIDERAÇÕES SOBRE SUA
HISTORIOGRAFIA E FILOSOFIA DA HISTÓRIA
Antonio G Sobreira
RESUMO:
Esta pequena resenha tem como objetivo apresentar resumidamente as principais
ideias presentes no artigo do prof. José Costa D’Assunção Barros, onde o mesmo
interpreta a obra historiográfica e a filosofia da história do autor iluminista
francês Voltaire.
Introdução
No
referido artigo Barros analisa a historiografia e a filosofia da história de
Voltaire. Barros consegue encontrar na
leitura que faz de Voltaire diferentes padrões historiográficos que ora aponta
para antigas concepções de história, ora para as novas visões pertencentes ao
século XVIII e XIX. Barros ainda
consegue enxergar em Voltaire elementos que prenunciam tendências
historiográficas que chegam até mesmo ao século XX.
Biografia
François
Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, nasceu em 21 de novembro de 1694,
em Paris. Seu pai era burguês e sua mãe aristocrata. Cedo recebeu uma formação
que o tornou um erudito nos seus dias.
Estudou latim, retórica, obras clássicas, o melhor da historiografia e
literatura conhecida na época. Estudou em escola jesuítica, o que contribuiu
para sua formação deísta, no entanto não poupou a igreja de suas críticas. Sua
obra é vasta e além da historiográfica, ainda escreveu poesia, romance, sátira
filosófica, drama teatral, reflexão filosófica, ciência e ficção cientifica. Até
no campo da crítica bíblica ele atuou.
Concepções
Embora
tenha sido o grande nome do Iluminismo
Voltaire não conseguiu abandonar o tradicionalismo, pois ainda defendia a
monarquia constitucional como a melhor forma de governo. Sua produção
historiográfica ainda pretende servir de instrumento educativo para os
governantes a moda dos antigos “espelhos de Príncipe”. O governante ideal é o
rei filosofo esclarecido.
Mas
por outro lado foi precursor de novos tempos, ao defender a luta pelos direitos
humanos e da liberdade de expressão. Ele questionou alguns valores de sua
época, e foi crítico fervoroso das
superstições das quais se utilizavam as instituições dominantes como forma de
impor o imobilismo das hierarquias e privilégios sociais que fundamentava o
Antigo Regime.
Modos
historiográficos em Voltaire
Sobre
suas obras estritamente historiográficas foram: História de Carlos XII(1731), O
século de Luiz XIV (1751), Annales de l’Empire(1753), História da Rússia sob Pedro Grande(1759).
Mas sua maior obra foi no campo da filosofia da historia, “Ensaio sobre os costumes”(1756).
Como
historiador esta numa posição singular, podemos dizer num ponto de inflexão
entre uma antiga era historiográfica e uma nova era historiográfica que
reivindicará status de cientificidade. Barros assinala que nesse ponto de
inflexão do qual se encontra Voltaire é ambígua. Segundo ele:
...Voltaire
está, com relação a historiografia, em três épocas ao mesmo tempo. Um de seus pés
esta firmado nesta antiga era historiográfica que vai de Heródoto e dos antigos
do século XVIII; outro de seus pés parece tocar o terreno ainda incerto dos
primeiros anseios da historiografia científica que se estabeleceria no século
XIX; e seus braços evocam retoricamente um futuro historiográfico ainda mais
distante, eu se estabeleceria definitivamente a partir da terceira década do
século XX. Esta imagem requer algumas explicações (BARROS, 2012, p.14).
Voltaire,
segundo Barros, intuiu uma forma de fazer história que estava além do seu
tempo, uma espécie de historiografia não-factual. Ela se voltaria para âmbitos
mais vastos que estavam para além do aspecto da mera história política. Mas
passemos a análise dos aspectos que o faziam ainda um historiador antigo.
Voltaire,
um historiador antigo
Barros
observa que o primeiro sinal do tradicionalismo em Voltaire encontrasse no
verbete “história” para a Enciclopédia (1756), onde define a história como um
gênero literário, em oposição à fabula, ao dizer que “ a história é o relato
dos fatos tidos como verdadeiros, ao contrário da fábula, que é o relato de
fatos tidos por falsos”. Barros assinala que Voltaire deixa de perceber a
história como um campo de conhecimento e uma práxis relacionada a pesquisa.
Mas
Voltaire tem uma intuição moderna, ao dividir
a História em História das ideias e História dos acontecimentos. Ele
divide esta última em História sagrada e profana. É sobre a História profana
que ele irá dedicar as suas reflexões filosóficas.
Outro
aspecto que o caracteriza como historiador antigo é sua concepção sobre
documentação (monumentos). Voltaire esta preocupado mais com a informação
histórica do que com a instância interpretativa do historiador. Inclui pouco
tipo de fontes históricas, isso porque sua maior preocupação esta na busca da
informação e a recolha das testemunhas, muito mais do que a análise das fontes
como discursos a serem decifrados ou compreendidos.
Voltaire
ainda esta preso na objetividade dos fatos que o documento pode fornecer. Assim
deixa de perceber que, mesmo em um documento, como uma estátua mitológica,
contem informações valiosas para o historiador. Para Voltaire a informação ali
contida é mera fábula, portando não tem valor objetivo, já que para ele a
história é o relato de fatos. Voltaire não percebe que ali, contem ricas fontes
de informação que expõe o universo mental daqueles que a construíram. O
filosofo concebe apenas o documento histórico em seu potencial como testemunho
ou como depositário de informações ao nível do que diz objetivamente sobre
algo. Hoje, um historiador não percebe o documento da mesma forma como os
antigos fizeram, para o historiador contemporâneo, todo documento, inclusive os
objetos da cultura material, são fontes não apenas em vista do que dizem, mas
também em função dos silêncios que deixam entrever. Mas ha um elemento moderno
aqui em Voltaire o desconfiar das fontes. Acreditar simplesmente na informação
objetiva é ingenuidade. Desconfiar das fontes é se colocar numa posição
crítica.
Mas
o aspecto que mais o relaciona com uma concepção historiográfica antiga, no que
diz respeito ao uso da documentação e a confiabilidade, é a sua priorização das
testemunhas oculares, que só perde em grau de confiabilidade para aquilo que foi visto diretamente pelo
historiador. Este ponto distingue Voltaire dos historiadores modernos que
valorizam em primeiro lugar os documentos deixados por sociedades ou indivíduos
que já deixaram de existir no tempo.
Voltaire
esta limitado por sua crença de que é suficiente à opção historiográfica, a crítica
da verossimilhança que consiste em separar
o verossímil do fabuloso. Enquanto que os historicistas avançam fazendo
críticas dentro dos próprios relatos verossímeis.
Outro
aspecto que o conecta a forma antiga de
fazer história é o fato do mesmo acreditar
que a principal finalidade da história é a de “magistral Vitae”. A
história é um caminho de instrução e
educação para os governantes. Eles devem aprender com os exemplos históricos. A
história instrui os espíritos. Ela tem uma função utilitarista e auxilia a
politica. Servem de critica as posturas tirânicas e as contrações de poder.
É
uma tendência em Voltaire o utilizar os
cenários históricos como um grande tribunal que oferece ao historiador a
oportunidade de julgar as ações humanas no tribunal da história.
O
Voltaire moderno
A
despeito da sua antiguidade, Voltaire também se posiciona como um historiador
moderno. Em primeira instância por oposição a concepção dos teólogos
historiadores, que acreditavam que a história equivale a realização progressiva
da vontade de Deus, e que até mesmo o próprio Deus interferia na história,
redirecionando os destinos do homem, interferindo em batalhas ou operado
milagres.
Para
os filósofos da história, a história da conta apenas do progresso do espírito
humano. Para Voltaire, sendo um deísta acreditava que Deus havia criado o
mundo, mas não acreditava que ele interferia na história. Deus havia abandonado o homem ao livre
desenvolvimento humano a partir de leis gerais por ele estabelecidas. A
humanidade caminha para o melhor, cada vez mais que utiliza a razão. Enfim, a
história não é guiada por Deus.
Para
muitos iluministas como Kant, a Razão seria o grande personagem da história universal. E a humanidade sempre
caminha em direção do melhor e do mais aperfeiçoado. Está presente já em
Voltaire a ideia de progresso.
A
concepção de tempo em Voltaire é inovadora pois consegue unir o tempo linear dos iluministas e novos
historiadores, ao tempo cíclico dos antigos, e a sua concepção de que poderia
haver retrocessos e recaídas na história das sociedades humana.
O
rigor metodológico pelo qual deve se orientar o historiador foi considerado um aspecto importante, que o aproxima dos
historiadores profissionais do século
XVIII e XIX, que estabelecem a crítica documental.
Voltaire
em sua historiografia retratou grandes personagens da história. Reconhecia que
boa parte da história cotinha histórias inúteis. Por isso seus exemplares possuíam um caráter exemplar. Seus exemplares
tinham como objetivo oferecer modelos para os príncipes esclarecidos. Seus
exemplares não são indivíduos excepcionais, mas sim constructos bem elaborados.
Importantes como exemplares não apenas por seus grandes feitos ou grandes
vitorias, mas também por suas derrotas e fracassos. São homens a favor do seu
tempo, cuja missão esta de acordo com o progresso, e não lutadores contra o seu
tempo, como é o caso dos grandes homens de Nietzsche.
Intuições
futuras
Voltaire
escreveu além da sua obra historiográfica outro gênero que chamou de “história
filosófica” que apresenta em sua obra “Ensaio sobre os Costumes” (1756).
Segundo Barros é nesse segundo tipo de texto que encontramos os comentários mais avançados sobre história, bem como a tentativa de coloca-los em prática, de modo
a fazer da história um campo de conhecimento eu poderia ir além do atual e
estabelecer uma reflexão complexa e diversificada sobre as diversas instancias do social - a cultura, os hábitos, os modos de pensar e
de sentir. (BARROS, 2012).
Barros
entende que a principal função da “história da filosofia” para Voltaire, é oferecer verdades uteis em lugar dos erros
inúteis. Não se trata de recolher dados indiscriminadamente. A história
filosófica confronta tanto os erros (fabulas e inverdades como também, de
alguma maneira, as verdades inúteis (o excesso de história).
Voltaire
faz uma crítica aos excessos factuais e
a erudição inútil, e defende uma posição
em favor de uma História que se preocupe com as grandes linhas, com aquilo que
realmente importa no devir histórico, e ainda
defende a amplitude de questões a serem consideradas para além dos meros
fatos políticos e das anedotas pessoais relacionadas aos grandes personagens.
O
estudo das obras historiográficas de Voltaire, segundo Barros, revela que ele
não se entregou efetivamente à intuição de uma nova historiografia que ele
mesmo enuncia no ensaio sobre os Costumes e no verbete “História”(1756).
Concepção
de tempo
O pensamento filosófico de Voltaire esta
empregado da ideia de progresso. Esse conceito esta presente em todos os
iluministas, com exceção apenas de
Rousseau (1750). Esse progresso é como uma linha ascendente, é uma
perspectiva que será herdada pelos historiadores profissionais do século XIX e além.
O tempo cíclico dos antigos tendera a ser substituído pelo tempo linear.
Porem
o tempo em Voltaire é ambíguo. Em Voltaire vemos a mescla desta temporalidade
progressiva com um tempo cíclico que remete aos antigos. Segundo Barros: “para
Voltaire, o progresso da humanidade, embora ocorra em um arco mais abrangente,
é entretecido por avanços e recuos – ou pela alternância entre épocas
iluminadas e épocas de decadência-...”.
Assim
cada época representa uma morte e um renascimento, não um mero renascimento
equiparado a épocas anteriores, mais também uma ultrapassagem, é esta
ultrapassagem que faz com que o arco do progresso ascenda cada vez mais rumo a
perfeição. A proposta de Voltaire é criativa, pois consegue nela harmonizar a
perspectiva dos antigos e dos modernos.
Visão
universalizante
Voltaire
segue seus companheiros iluministas que busca tomar consciência da
universalidade humana, da regularidade e constância de leis que possivelmente
são as responsáveis pelo comportamento humano.
Esse
pensamento é marcado pela busca da unidade, ela incluiria todos as sociedades
humanas. Existe aqui a crença na existência de uma natureza humana universal.
Barros aponta como contraditório no pensamento iluminista a existência dessa
natureza universal e a diversidade evidente em sociedades e indivíduos, no
espaço e no tempo.
Conclusão
Voltaire sem dúvida deu sua
contribuição como historiador e filosofo que era por meio das obras que
produziu no campo historiográfico e filosófico.
Fruto do seu tempo marcado pela confiança irrestrita na razão, deixou
seu nome na história e na filosofia, por sua capacidade crítica, seu
inconformismo com o tradicional, com o velho, não negando em todos seus
aspectos, mas tentando transforma-lo a bem do progresso humano. Embora o
conceito de progresso hoje seja questionável, mas o que não se questiona é que este
filosofo francês fez o pensamento filosófico fazer mais uma flexão (exercício),
fortalecendo pela ginástica do pensar, o espírito humano.
REFERÊNCIA
BARROS, José Costa D’Assunção. Voltaire:
Considerações
Sobre Sua Historiografia E Filosofia Da História. Revista de Teoria da História Ano 3, Numero 7,
jun 2012 Universidade Federal de Goiás ISSN 2175-5892

Nenhum comentário:
Postar um comentário