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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

VOLTAIRE: CONSIDERAÇÕES SOBRE SUA HISTORIOGRAFIA E FILOSOFIA DA HISTÓRIA

VOLTAIRE: CONSIDERAÇÕES SOBRE SUA HISTORIOGRAFIA E FILOSOFIA DA HISTÓRIA

Antonio G Sobreira

RESUMO: Esta pequena resenha tem como objetivo apresentar resumidamente as principais ideias presentes no artigo do prof. José Costa D’Assunção Barros, onde o mesmo interpreta a obra historiográfica e a filosofia da história do autor iluminista francês Voltaire.

Introdução
No referido artigo Barros analisa a historiografia e a filosofia da história de Voltaire.  Barros consegue encontrar na leitura que faz de Voltaire diferentes padrões historiográficos que ora aponta para antigas concepções de história, ora para as novas visões pertencentes ao século XVIII e XIX.  Barros ainda consegue enxergar em Voltaire elementos que prenunciam tendências historiográficas que chegam até mesmo ao século XX.
Biografia
François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, nasceu em 21 de novembro de 1694, em Paris. Seu pai era burguês e sua mãe aristocrata. Cedo recebeu uma formação que o tornou um erudito nos seus dias.  Estudou latim, retórica, obras clássicas, o melhor da historiografia e literatura conhecida na época. Estudou em escola jesuítica, o que contribuiu para sua formação deísta, no entanto não poupou a igreja de suas críticas. Sua obra é vasta e além da historiográfica, ainda escreveu poesia, romance, sátira filosófica, drama teatral, reflexão filosófica, ciência e ficção cientifica. Até no campo da crítica bíblica ele atuou.
Concepções
Embora tenha  sido o grande nome do Iluminismo Voltaire não conseguiu abandonar o tradicionalismo, pois ainda defendia a monarquia  constitucional  como a melhor forma de governo. Sua produção historiográfica ainda pretende servir de instrumento educativo para os governantes a moda dos antigos “espelhos de Príncipe”. O governante ideal é o rei filosofo esclarecido.
Mas por outro lado foi precursor de novos tempos, ao defender a luta pelos direitos humanos e da liberdade de expressão. Ele questionou alguns valores de sua época, e foi crítico fervoroso  das superstições das quais se utilizavam as instituições dominantes como forma de impor o imobilismo das hierarquias e privilégios sociais que fundamentava o Antigo Regime.

Modos historiográficos em Voltaire
Sobre suas obras estritamente historiográficas foram: História de Carlos XII(1731), O século de Luiz XIV (1751), Annales de l’Empire(1753),  História da Rússia sob Pedro Grande(1759). Mas sua maior obra foi no campo da filosofia da historia,  “Ensaio sobre os costumes”(1756).
Como historiador esta numa posição singular, podemos dizer num ponto de inflexão entre uma antiga era historiográfica e uma nova era historiográfica que reivindicará status de cientificidade. Barros assinala que nesse ponto de inflexão do qual se encontra Voltaire é ambígua. Segundo ele:
...Voltaire está, com relação a historiografia, em três épocas ao mesmo tempo. Um de seus pés esta firmado nesta antiga era historiográfica que vai de Heródoto e dos antigos do século XVIII; outro de seus pés parece tocar o terreno ainda incerto dos primeiros anseios da historiografia científica que se estabeleceria no século XIX; e seus braços evocam retoricamente um futuro historiográfico ainda mais distante, eu se estabeleceria definitivamente a partir da terceira década do século XX. Esta imagem requer algumas explicações (BARROS, 2012, p.14).

Voltaire, segundo Barros, intuiu uma forma de fazer história que estava além do seu tempo, uma espécie de historiografia não-factual. Ela se voltaria para âmbitos mais vastos que estavam para além do aspecto da mera história política. Mas passemos a análise dos aspectos que o faziam ainda um historiador antigo.

Voltaire, um historiador antigo

Barros observa que o primeiro sinal do tradicionalismo em Voltaire encontrasse no verbete “história” para a Enciclopédia (1756), onde define a história como um gênero literário, em oposição à fabula, ao dizer que “ a história é o relato dos fatos tidos como verdadeiros, ao contrário da fábula, que é o relato de fatos tidos por falsos”. Barros assinala que Voltaire deixa de perceber a história como um campo de conhecimento e uma práxis relacionada a pesquisa.
Mas Voltaire tem uma intuição moderna, ao dividir  a História em História das ideias e História dos acontecimentos. Ele divide esta última em História sagrada e profana. É sobre a História profana que ele irá dedicar as suas reflexões filosóficas.
Outro aspecto que o caracteriza como historiador antigo é sua concepção sobre documentação (monumentos). Voltaire esta preocupado mais com a informação histórica do que com a instância interpretativa do historiador. Inclui pouco tipo de fontes históricas, isso porque sua maior preocupação esta na busca da informação e a recolha das testemunhas, muito mais do que a análise das fontes como discursos a serem decifrados ou compreendidos.
Voltaire ainda esta preso na objetividade dos fatos que o documento pode fornecer. Assim deixa de perceber que, mesmo em um documento, como uma estátua mitológica, contem informações valiosas para o historiador. Para Voltaire a informação ali contida é mera fábula, portando não tem valor objetivo, já que para ele a história é o relato de fatos. Voltaire não percebe que ali, contem ricas fontes de informação que expõe o universo mental daqueles que a construíram.   O filosofo concebe apenas o documento histórico em seu potencial como testemunho ou como depositário de informações ao nível do que diz objetivamente sobre algo. Hoje, um historiador não percebe o documento da mesma forma como os antigos fizeram, para o historiador contemporâneo, todo documento, inclusive os objetos da cultura material, são fontes não apenas em vista do que dizem, mas também em função dos silêncios que deixam entrever. Mas ha um elemento moderno aqui em Voltaire o desconfiar das fontes. Acreditar simplesmente na informação objetiva é ingenuidade. Desconfiar das fontes é se colocar numa posição crítica.
Mas o aspecto que mais o relaciona com uma concepção historiográfica antiga, no que diz respeito ao uso da documentação e a confiabilidade, é a sua priorização das testemunhas oculares, que só perde em grau de confiabilidade para  aquilo que foi visto diretamente pelo historiador. Este ponto distingue Voltaire dos historiadores modernos que valorizam em primeiro lugar os documentos deixados por sociedades ou indivíduos que já deixaram de existir no tempo.
Voltaire esta limitado por sua crença de que é suficiente à opção historiográfica, a crítica da verossimilhança que consiste em separar  o verossímil do fabuloso. Enquanto que os historicistas avançam fazendo críticas dentro dos próprios relatos verossímeis.
Outro aspecto que o  conecta a forma antiga de fazer história é o fato do mesmo acreditar  que a principal finalidade da história é a de “magistral Vitae”. A história é um caminho de instrução  e educação para os governantes. Eles devem aprender com os exemplos históricos. A história instrui os espíritos. Ela tem uma função utilitarista e auxilia a politica. Servem de critica as posturas tirânicas e as contrações de poder.
É uma tendência em Voltaire  o utilizar os cenários históricos como um grande tribunal que oferece ao historiador a oportunidade de julgar as ações humanas no tribunal da história.
O Voltaire moderno
A despeito da sua antiguidade, Voltaire também se posiciona como um historiador moderno. Em primeira instância por oposição a concepção dos teólogos historiadores, que acreditavam que a história equivale a realização progressiva da vontade de Deus, e que até mesmo o próprio Deus interferia na história, redirecionando os destinos do homem, interferindo em batalhas ou operado milagres.
Para os filósofos da história, a história da conta apenas do progresso do espírito humano. Para Voltaire, sendo um deísta acreditava que Deus havia criado o mundo, mas não acreditava que ele interferia na história.  Deus havia abandonado o homem ao livre desenvolvimento humano a partir de leis gerais por ele estabelecidas. A humanidade caminha para o melhor, cada vez mais que utiliza a razão. Enfim, a história não é guiada por Deus.
Para muitos iluministas como Kant, a Razão seria o grande personagem  da história universal. E a humanidade sempre caminha em direção do melhor e do mais aperfeiçoado. Está presente já em Voltaire a ideia de progresso.
A concepção de tempo em Voltaire é inovadora pois consegue  unir o tempo linear dos iluministas e novos historiadores, ao tempo cíclico dos antigos, e a sua concepção de que poderia haver retrocessos e recaídas na história das sociedades humana.
O rigor metodológico pelo qual deve se orientar o historiador  foi considerado  um aspecto importante, que o aproxima dos historiadores profissionais do século  XVIII e XIX, que estabelecem a crítica documental.
Voltaire em sua historiografia retratou grandes personagens da história. Reconhecia que boa parte da história cotinha histórias inúteis.  Por isso seus exemplares  possuíam um caráter exemplar. Seus exemplares tinham como objetivo oferecer modelos para os príncipes esclarecidos. Seus exemplares não são indivíduos excepcionais, mas sim constructos bem elaborados. Importantes como exemplares não apenas por seus grandes feitos ou grandes vitorias, mas também por suas derrotas e fracassos. São homens a favor do seu tempo, cuja missão esta de acordo com o progresso, e não lutadores contra o seu tempo, como é o caso dos grandes homens de Nietzsche.
Intuições futuras
Voltaire escreveu além da sua obra historiográfica outro gênero que chamou de “história filosófica” que apresenta em sua obra “Ensaio sobre os Costumes” (1756). Segundo Barros é nesse segundo tipo de texto que encontramos  os comentários mais avançados  sobre história, bem como  a tentativa de coloca-los em prática, de modo a fazer da história um campo de conhecimento eu poderia ir além do atual e estabelecer uma reflexão complexa e diversificada  sobre as diversas instancias do social -  a cultura, os hábitos, os modos de pensar e de sentir. (BARROS, 2012).
Barros entende que a principal função da “história da filosofia” para Voltaire,  é oferecer verdades uteis em lugar dos erros inúteis. Não se trata de recolher dados indiscriminadamente. A história filosófica confronta tanto os erros (fabulas e inverdades como também, de alguma maneira, as verdades inúteis (o excesso de história).
Voltaire faz uma  crítica aos excessos factuais e a erudição inútil,  e defende uma posição em favor de uma História que se preocupe com as grandes linhas, com aquilo que realmente importa no devir histórico, e ainda  defende a amplitude de questões a serem consideradas para além dos meros fatos políticos e das anedotas pessoais relacionadas aos grandes personagens.
O estudo das obras historiográficas de Voltaire, segundo Barros, revela que ele não se entregou efetivamente à intuição de uma nova historiografia que ele mesmo enuncia no ensaio sobre os Costumes e no verbete “História”(1756).
Concepção de tempo
 O pensamento filosófico de Voltaire esta empregado da ideia de progresso. Esse conceito esta presente em todos os iluministas, com exceção apenas de  Rousseau (1750). Esse progresso é como uma linha ascendente, é uma perspectiva que será herdada pelos historiadores profissionais do século  XIX e além.  O tempo cíclico dos antigos tendera a ser substituído pelo tempo linear.
Porem o tempo em Voltaire é ambíguo. Em Voltaire vemos a mescla desta temporalidade progressiva com um tempo cíclico que remete aos antigos. Segundo Barros: “para Voltaire, o progresso da humanidade, embora ocorra em um arco mais abrangente, é entretecido por avanços e recuos – ou pela alternância entre épocas iluminadas e épocas de decadência-...”.
Assim cada época representa uma morte e um renascimento, não um mero renascimento equiparado a épocas anteriores, mais também uma ultrapassagem, é esta ultrapassagem que faz com que o arco do progresso ascenda cada vez mais rumo a perfeição. A proposta de Voltaire é criativa, pois consegue nela harmonizar a perspectiva dos antigos e dos modernos.
Visão universalizante
Voltaire segue seus companheiros iluministas que busca tomar consciência da universalidade humana, da regularidade e constância de leis que possivelmente são as responsáveis pelo comportamento humano.
Esse pensamento é marcado pela busca da unidade, ela incluiria todos as sociedades humanas. Existe aqui a crença na existência de uma natureza humana universal. Barros aponta como contraditório no pensamento iluminista a existência dessa natureza universal e a diversidade evidente em sociedades e indivíduos, no espaço e no tempo.
Conclusão
Voltaire sem dúvida deu sua contribuição como historiador e filosofo que era por meio das obras que produziu no campo historiográfico e filosófico.  Fruto do seu tempo marcado pela confiança irrestrita na razão, deixou seu nome na história e na filosofia, por sua capacidade crítica, seu inconformismo com o tradicional, com o velho, não negando em todos seus aspectos, mas tentando transforma-lo a bem do progresso humano. Embora o conceito de progresso hoje seja questionável, mas o que não se questiona é que este filosofo francês fez o pensamento filosófico fazer mais uma flexão (exercício), fortalecendo pela ginástica do pensar, o espírito humano.

REFERÊNCIA
BARROS, José Costa D’Assunção. Voltaire: Considerações Sobre Sua Historiografia E Filosofia Da História.  Revista de Teoria da História Ano 3, Numero 7, jun 2012 Universidade Federal de Goiás ISSN 2175-5892